OLÁ, AMIGOS!

Como retribuir ao universo a dádiva da vida, pensava. Agradecendo a Deus todos os dias. Dividindo com o mundo o que de melhor me ocorresse na alma, o que eu mais amasse em mim. E respondia à minha própria busca: Arte, a única coisa que diferencia os homens. Eis então minha oferenda ao mundo, minha contribuição para a humanidade: minha arte. Melodia como veículo de minha poesia e vice-versa, minha arte sou eu, levando a quem quiser ouvir minha forma de compor, escrever e cantar o universo e o acontecer das coisas que vivencio. O que canto ou escrevo é o que há de mais profundo em meu coração. Rogo por agradar a quem me ouvir ou ler. Benvindos e obrigado pela visita! Newton Baiandeira





terça-feira, 8 de março de 2011

DIA DA MULHER, MÊS DE TERNURA, LUZ DE VIDA INTEIRA


MULHERES
Newton Baiandeira

Eu respeito essa mulher
Que produz da fé a decisão
Eu desejo essa mulher
Que transcende a chama da paixão
Entre orgasmos e lençóis
Sem perder o fio da razão
Pelos labirintos do poder
A cidadania de batom
Vai traçando um novo tom
Na cisão cirúrgica do caos
Cúmplice, parceira natural,
Mãe, mulher, amiga, pai, irmã
Brasileira ou afegã
O amor é um laço universal
Brilhará
Sempre quem compreender a luz
Carregarão a cruz do sol
Os homens da paixão fugaz
Que não apostam no amor
Útero, a liberdade efêmera
Se eternizará no amor
Todo futuro é fêmea,
Todo o universo é prazer

JÚLIA
Newton Baiandeira

Júlia, pega uma estrela no céu
Pra iluminar sua estrada, vai
Deixa seu corpo rolar

Júlia, todo o universo é você
No coração de quem fica aqui
Pelo prazer de te ver

Jura que nosso amor será
Sempre, esteja onde estiver
No azul do céu, na terra ou no mar
Mais do que o chão
As ondas, o sol, o luar.

AMÉRICA DO AMOR
Newton Baiandeira

Nada poderá atrapalhar meus planos
Tudo que juntei por todos esses anos
Sonhos por viver na dimensão da vida
Trilhas que paguei viagens proibidas
Nada impedirá meus planos
De romper o tempo, voar

Sou uma mulher americana
Neo-latina além do Equador
Infinita, livre, leve e solta
Ave de alma exposta, meu amor
Nada no mundo se cria
Tudo transforma-se em mim
Loba regada de luas de marfim
Libertas Quae Sera Tamen
Na linha do Equador
Na plenitude da América do amor

JULIETA
Newton Baiandeira

Ó, Julieta!
Em que gaveta desses de se trancar?
Em que lugar se esconde?
Me diz aonde que eu chego já!

Vou lhe beijar o beijo mais fundo
Que o mundo viu beijar
Vou semear seu colo profundo
Pra vida se alastrar

Qual luz de uma estrela
Só quero vê-la a me guiar, guiar
No rumo a passo lento
Sem desavento pra me atentar

Um riacho, um cacho de prazer
Um amanhecer de rouxinóis
Seda nos lençóis
Linda de se ver,
Uma casa branca de sapê

Se você estiver ouvindo esta canção
Se quiser meu coração é só dizer
Que eu vou viver a vida até morrer
Só pra te amar, só pra te amar
Só pra te ama.

NAS TRINCHEIRAS DAS PAIXÕES
Newton Baiandeira

Amava Júlia Ana
Solenemente Ana
Dois amores tão iguais
No abismo das paixões

Dançava Júlia
Ana cantava soberana
Em profanas traduções
Das trincheiras do amor

Duas almas nuas em fulgor
Contornando luas de amor
Quando a luz do sol
Desatava o nó
Julia e Ana se fundiam numa só

Ruborizada Ana
Alucinada Júlia
Duas almas numa só
Revelando o amanhecer

Desviando as plagas, contornando a multidão
Em segredo Ana e Júlia Juliana são

Amedrontada Júlia
Amenizante Ana
Duas almas numa só
Revelando o amanhecer

À luz que irradia
O amor de cada dia
Ana e Júlia vão iguais
Nas trincheiras das paixões

HELENA DE PRIMO
Newton Baiandeira

Essa escultura parece uma helena
Qualquer uma helena que venha do mar
Qualquer estrela que seja morena
Qualquer uma helena
Mulher que será
Que sai do prumo, escapa do limo
Helena de Primo que eu fiz batizar
Que seja fêmea, irmã, mãe e filha
Um pai de família
Que saiba enfrentar
Que tenha no rosto
As marcas de agosto
Que tenha nos ombros
A marca da cruz
Que seja Jesus, Maria e José
Um barco de fé
Que assuma esse mar
Eu fiz helena por falta no entalhe
Não fosse um detalhe
Um sopro vital
Seria só uma estátua no limo
Helena de Primo Fulana de Tal.

MUSA
Newton Baiandeira

Os olhos dela são templos
Deuses e ventos cantam a música
Os seus cabelos são teias
Elos, cadeias de sóis verânicos
Em sua boca as palavras têm
Ritmo, vida
Alma perdida no seu batom
Teço em tons o amor

Ando pra lá de ciúmes
Do seu perfume de aura oceânica
Óleos de brisas botânicas
Meu supersônico
Meu amor

MARIA RITA
Newton Baiandeira

Chego ao pôr-do-sol num caminhão
Corpo ensopado de suor
Ela me espera no portão
Coisa bonita de se ver
Maria Rita, meu amor

Se achega em mim caudalosa
Com cheiro de rosa, flor mais bela
Se enrosca no meu pescoço com tanto alvoroço

Gosto dela!

Serve o jantar como se serve ao céu
Uma oferenda banhada de mel
Comida em farto tempero de amor

Sob os lençóis, mil carinhos de amor
Mal fecho os olhos e o despertador
Avisa a hora e lá vem caminhão

De novo trabalhar
Pra poder sustentar Maria Rita.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

VERDES ECOS DA AMAZÔNIA

“Engana-se quem pensa que Carlos era triste...”

Thiago de Mello me trouxe um novo Drummond. Sem as sombrias representações, tão e então a mim historiadas e, às vezes, compreendidas na obra do Itabirano, a nova imagem desvendou em mim, mistérios que havia entre o mito e o homem Carlos. Ao relato da sua longa e intensa convivência com o Poeta Maior, Thiago de Mello era bálsamo à minha ferida. Eu reencontrava ali o menino do balão, o espírito lúdico.

BUTECO CULTURAL

Madeira entalhada à porteira anunciava o São Francisco De Minas no sempre novo Caminho Novo: “Boteco não, buteco! E noves fora, meu!”
O primeiro freguês tinha direitos: não pagava a primeira dose nem o primeiro tira-gosto, e podia escolher a primeira música. Sebastião Silvatara era a chave que abria e, ás vezes, fechava o etílico.

- “Baiandeira, São Francisco de Minas é muito grande. Aqui devia chamar Buteco Cultural.”
- Ô, Tião, mas todo boteco é cultural!
- “Pode ser, mas o que tem Sebastião SIL- VA-T A-R A é mais, noves fora!”
- São Francisco é santo, é rio...
- Noves fora, Alá os capetas se afogando em pinga! (Risos de boca inteira)
- Você não sabe o que diz, Tião!
- E você? Sabe por que é que o cabrito caga redondo?
- Não, não sei. E daí?
- Ué, você não entende de bosta e quer entender de buteco mais do que eu? Se me der mais uma na risca do copo, eu canto. E melhor que você. Eu sou Tião SIL- VA-T A-R A, eu sei das coisas!

Três dedos da Caninha de Ferros e ele abria a goela:
“Vou te contar como vai ser meu casamento
Com a filha do sargento da Guarda nacional
Já comprei calça, paletó, camisa fina
Só me falta uma botina de pelica especial...”

Não sei qual saudade ecoa mais em mim, se a do primeiro boteco ou do primeiro freguês. Nem se mais silva ou tara. Sei que em Ita o mato é dentro!

Letras de Música:

CICLO
Newton Baiandeira
Nascer, acesa a luz, brincar/
Correr sem se prender ao amanhã/
Sorrir, acontecer, ganhar o sol/
A vida é cheiro de hortelã/
Voar no tobogã; roda gigante/
O sonho preso num barbante/
A vida em volta de um balão/
Rolar nos movimentos do planeta/
Não há boi-da-cara-preta/
Não existe solidão/
Crescer, sonhar, não ter, lutar, sofrer/
Desaprender a ser feliz/
Juntar, poupar, adoecer, juntar/
Poupar riquezas pra amanhã/
Futuro pronto, o coração tá cheio/
Uma carta do correio/
Diz que é o fim da ilusão/
Chorar, se arrepender e rogar praga/
De repente a luz se apaga/
E é o fim da canção.

DEMORAS
Newton Baiandeira
Quem rebusca esmera. Vive à espera, angustiosa, terrível.

De tão rebuscado traço, não há esmero de olhar tão perto e hábil que faça cooptar seu tempo.
Tanto rebuscar no fazer... Delonga o prazer da contrapartida.

Em tão estado de solidão, não lhe ocorre ignorâncias tais nem se lhe permite à vaidade consentir indiferenças.

Senãos contados, de sanar-lhe a dor de ego ferido só o tempo dará cabo.

DE PRA
Newton Baiandeira
Rir é sempre de. Sorrir é pra.
Sorria pro riso! Não é ordem, mas é uma questão de estado!

Homem é de. Pessoa é pra. De homem pra homem, somos, de mundo pra mundo, fundados, fadados, findados,pensantes e então errantes. Imensos e fundos.

Tanta grandiosidade, não lhe cabe ocos e pequenices!


A ARTE NO MURO
Newton Baiandeira
Nem de Sartre, nem de Fidel, de Berlim ou China. Nem de pedras ou rosas.
Nem de tucanos ou de urubus; a dividir vontades e idéias. Muros deveriam servir somente às artes e encartes. Espaço de contato entre os olhos e o simples belo
Reações, transgressões: imagens inipócritas do eterno conflito entre bem e mal.
Cabem ás manifestações e expressões do espírito como luvas ao dedo de Deus.
Mais que divisor, um elo entre liberdades: eis ao que serve um muro.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

UM PRESÉPIO ANDANTE

A cidade recebe o natal, se impregna da aura de dezembro e a chama da paz acende as tochas e piras. À luz da cidade reflete nos olhos um brilho novo, mais instigante que o do minério a sóis e luas e o mais doce vale se acomoda ás almas e seus risos inteiros. As praças promovem a vidas de há muito sumidas encontros inusitados, abraços largos e apertos de saudades.

O natal entranha-se em tudo e todos, gente e lojas, presentes e saldar de dívidas. O beijo mais demorado, escandaloso e farto do casal de jovens me indica cumplicidades a mais, porque é dezembro? Sei lá! Sei que dezembro me faz abobado e vendo coisas mais do que havia ou via, sentindo gosto de chocolate com peru em tudo.

Nesses dias dezembrinos a oração do padre me parece mais célere, mas que nada, sou eu com mais paciência na igreja. Os joelhos já não reclamam das madeiras desiguais do banco. Olha só, me pego rezando alto, sem vergonha dos fiéis redores!

Aos sinos, entusiásticos, meu espírito avisa que lá vem inspiração. Decerto a nova canção será de paz e amor e há de trazer alguma contribuição pra harmonia do mundo, mais um presente de natal que poderei repassar ao meu redor.

A Praça Redonda tá cheia de luzes, o prefeito não se descuidou. Luzes de plástico, numa reciclagem de orgulhar quaisquer cristos, iluminando a pressa que leva à Noite Feliz. Logo o Coral da Fundação vai entoar a Canção de Natal e aí, senhores, eu vou às nuvens, quiçá, na carruagem de Papai Noel. Ah, não acreditam em Papai Noel? Então podem mandar pra mim todos os presentes que ganharem!

O “Presépio Andante” visita os bairros da cidade, uma fileira de gente galante empresta passos de sua melhor idade pra dar boas vindas ao Cristo, os meninos acompanham de riso grande, saltitantes por todo o percurso, o presente humano. Coisa de Marília Ramos, ao som dos tambores e alegorias, os Senhores da Vida Ativa vêm dizer ao Cristo que Itabira é um poço de fé e esperança e que o espírito natalino se consagra no coração do Homem de Ferro.

CANÇÃO DE PAZ

E do mar a brisa veio conversar
Então, já não estamos sós
Olha o sol que brilha, é manhã
Ouça o rouxinol!
Canta o sabiá!
Vê o azul-marinho
Canta o mar!
Todo o céu conspira
Toda, a terra dança
Pra acordar a criança
Perdida em nós!

CANÇÃO DE NATAL
É natal!
A paixão se refaz dentro de nós
Que a fraternidade, o perdão, a paz
Se traduzam nos homens de bem
Que do sol, o calor
Que do amor, a emoção
Venham aquecer nossos corações
Nesse novo tempo que se faz
Tempo bom pra desejar a você feliz natal!
Um ano mais feliz
Muita vibração
Que seu sonho possa se realizar
Que no ano que vem tudo corra bem
Muito amor em seu coração.
Feliz natal!

CANÇÃO PARA OS 300 ANOS

A cidade amanheceu tão bonita.
Revestida de alegria, em flor.
Do Cauê ao Pico do amor.
Desde o Centro Cultural,
Varando os casarões
Uma só diretriz.
Pelas leis do coração,
Cada cidadão tinha de ser feliz.
Bandas furiosas
Marujadas, corais.
Grupos de serestas
Violões, madrigais.
Homens, mulheres e meninos,
Cantos, hinos, no mais belo tom.
São 300 anos de história
De Itabira, terra de Drummond.
E toda a folia
Tomou conta da praça.
Maria Fumaça espalhando alegria.
E os homens de ferro
Em plena harmonia,
Gritavam aos berros
Viva a “Vila da Utopia”

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

BURRO ATÉ ENCOSTAR NA CERCA

Na linguagem que lhe era peculiar dizia Bastiana que o amor haveria de ser elegante, cordial e, principalmente, tolerante, compreensivo a humores e variações, caras e bocas do parceiro. Deveria o amante conceder ao amado o que lhe coubesse querer. Antecipar a oferta do que gostaria que a si fosse ofertado pela companhia.

“Esse negócio de só querer e mais querer sem nada dar estraga qualquer relação e desmancha casamentos que é uma beleza”. Esse papo para com as moças era sempre encerrado com a máxima: “marido, ruim com ele, pior sem ele”.

Se me encantava seu pensamento e seu falar sempre precedido de ações comprobatórias, a forma expressiva de linguagem e sua visão simplista e humanamente forte me levavam a contemplações constantes. A rigor, era a linguagem que eu queria pra minhas manifestações artísticas em que já, aos oito anos, projetava carreiras e profissões da área pra minha vida.

O rigor do jornalismo que impõe ao escritor formalidades, à extrema severidade eu achava que nunca poderia ser escritor. A não ser que freqüentasse por anos intermináveis as cadeiras das academias. Queria escrever, não a tão sacrifício!

“O estudo é base de tudo na vida. Ou você estuda ou vai ser burro até encostar na cerca!” Era ela no meu sempre! “Pra felicidade do espírito é sempre melhor que se fale exatamente o que se quer dizer. Pra escrever, se você souber o que quer dizer, o dicionário, pai dos burros, cuida de sinônimos bonitos pra cada palavra. Dá pra enfeitar tudo”.
“Só tem uma coisa, no fundo é tudo igual. Se você quer dizer bosta, qualquer outra palavra que o dicionário autorize poderá mudar a forma de expressão, mas vai feder na mesma intensidade. Bonita ou feia, merda, quanto mais mexer mais fede. Como nossa própria merda não deve atingir outros narizes, se queremos dizê-la bonito é melhor estudar muito antes de correr pro mundo”. Era ela, tudos e contudos costumeiros, minha mãe!

Aprendi a gostar de ler jornal com Dona Sebastiana e Seu Milino. Enquanto eles praticavam essa leitura quase diária, eu descobria ali os melhores momentos pra fugir pra arena de peraltices.

Estou, agora, lendo a matéria de um jornalista e quase posso tocar em sua angustiante vontade de impor sua verdade ao texto, de imprimir sua visão da história a uma matéria sobre o Haiti. Posso sentir seu sofrimento em se ater às vontades históricas e matemáticas, muitas vezes, injustas e não condizentes com os fatos.

Então, Bastiana, aqui não há merda escrita em sua acepção natural, mas fede pra danar.

Letra de Música:

A VIDA É BELA
Newton Baiandeira

Minha mãe plantou o coração
Á beira da linha do trem
Quando Juvenal se mandou
Numa carruagem pro céu
Seis filhos, nova e sem planos
Restaram só perdas e danos
Passam os anos, e ela com os olhos no trem
Mirando a vida da janela
A me ensinar os sonhos dela
Ó, como é bela a minha mãe vendo o trem
Minha mãe plantou o coração...
Me ensinou que ser honesto
Pode doer, mas é o correto
E que mais vale quem é do que quem mais tem
Poder mirar o seu espelho
Sem encarar olhos vermelhos
Entre conselhos, olhos parados no trem
Eu também plantei meu coração
Á beira da linha do trem
Quando Sebastiana se foi
Numa carruagem pro céu.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

UM OLHAR ITABIRANO SOBRE O POETA CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

O POETA
Newton Baiandeira

Ei-lo: palavra na boca do tempo,
Sentimento no coração do mundo.
Trilhos e trilhas da alma itabirana

CASAS
Newton Baiandeira

Numa, ele nasceu; noutra cresceu. Uma terceira, mais funda na memória, virou história de muitos pedaços. Poetas criam asas! Com tantas casas, ele preferiu pousar outros galhos do mundo.

ENIGMA
Newton Baiandeira
Às vezes me deito na rede e fico a imaginar o que se passa entre o retrato e a parede.

FALAS
Newton Baiandeira

Uns falam muito em Drummond duas vezes por ano.
Outros pouco, todos os dias.
Uns não falam, só sentem.
Outros nem sentem.
Drummond são todos os sentidos da palavra.
Itabira é o amor em todas as nuances da paixão,
dividida entre os que vivem nele,
os que vivem com ele e os que vivem dele.
Todos, de formas diferentes, o amam.
Por amor, dinheiro ou política.

SER ITABIRANO
Newton Baiandeira

Ser itabirano
é
Contar
Vagões
Reverenciar
Drummond.
E, numa eterna alquimia,
forjar de ferro e poesia,
um jeito especial de viver,
sonhar e administrar paixões.

MIRANTE
Newton Baiandeira

Há um poeta, longe, onde tudo é grande.
O mar é grande, a calçada é grande no seu mundo largo.
A pedra, as almas de ferro; os horizontes de noites brancas sem mulheres, ao longe contam distâncias no relógio da matriz.
Há um poeta longe.
Sua poesia vem aqui ao pé do ouvido, à vista dos olhos, à porta do coração.
Não há distância. No fundo, há um poeta no fundo da alma.

DUALIDADE
Newton Baiandeira

Poeta e pessoa
A diferença é coisa à toa
Um enxerga o outro vê
Um escreve o outro lê
Poeta e pessoa
A diferença é coisa à toa
Um caminha o outro voa.

UMA RUA ITABIRANA
Newton Baiandeira

Havia um poeta nessa rua. Guardo em meus olhos o mais pesado silêncio que sua ausência consentiu. Ele se foi. Talvez buscasse uma rima desgarrada, sei lá! Só sei que ele não voltou e o máximo que me permite é essa rua, encharcada de sua magia.

O CRAQUE
Newton Baiandeira

Pelé de palavra
Mané de penas tortas
Toque de gênio
Goal de letra


UM DIA DE MORTE
Newton Baiandeira

À tarde, o plantão jornalístico anunciou: faleceu hoje o poeta Carlos Drummond de Andrade.
Aqui, levantaram bandeiras e montaram palanque e fizeram discursos.
Silêncio! Pensei.
Na agonia desse instante, me pediram pra falar de Drummond.
- Mas Drummond não é palavra, é sentimento. Eu sinto muito!

VIAGEM
Newton Baiandeira

Agora eu sigo as ruas do azul, arrebatado, pleno de magia. Mergulho na utopia em busca de tudo que eu possa somar ao concreto que me circunda.

RECONSTITUIÇÕES
Newton Baiandeira

Vão reconstituir a “Fazenda dos Doze Vinténs” do poeta Carlos Drummond de Andrade. Que nobreza!
Não obstante, ela vai ser reerguida onde o “Maior Trem do Mundo” desova seus rejeitos.
Homens firmes e retos aplaudem. Homens flexíveis e tortos choram impotentes.
Dúvida atroz; às vezes, penso que a despeito da melhor das intenções, entregamos um guerreiro ao seu algoz.

O ILUSTRE VISITANTE
Newton Baiandeira

A porta está aberta, como sempre esteve nesta humilde casa. Estamos à mesa posta. Alimentamo-nos do pão de tua poesia; o que nos dá sustança pra tirarmos pedras dos caminhos de corações céticos e inseri-lo lá.
Havia dias em que empreendíamos toda energia que tínhamos sem resultado.
Então, recarregávamo-nos de tua palavra, voltávamos à carga e vencíamos todas as batalhas, uma a uma.
Foram tantas e árduas que não tivemos tempo de arrumar a casa para recebê-lo.
Não temos tapete de couro de anta nem há imagens do Santeiro Duval. Mas, no quintal há um jardim em forma de coração e nele, milhares de pés de ¨ Rosa do Povo”.
Entra, Carlos, seja bem vindo!

A TRÍADE
Newton Baiandeira

No Pico do Amor a arquitetura de Niemeyer, a poesia de Drummond e a escultura de Amílcar se encontram.
Mais que uma convenção de artes, uma generosa ceia das almas itabiranas. Do Cruzeiro o Cristo testemunha majestosa comunhão de Magnífica Trindade.


RESTOS MORTAIS
Newton Baiandeira

Um corpo que regressa à alma que nunca saiu daqui.
Que venham os ossos de corpo e ofício: restos mortais de um imortal.
Que venham o Rio, o mar, o mundo.
E os Portais de Niemeyer.
E a crônica de Afonso.
E a postura da média.
E os holofotes da mídia.
E as mulheres de horizontes perfeitos.
Que venha o tempo a tempo dar quintais a vida!

MEDITAÇÃO
Newton Baiandeira

Virá do ato a conseqüência
Da inocência a sabedoria
E, na agonia do entremeio,
A alma fatigada buscará a paz.

CAMARIM
Newton Baiandeira

Ao final do grande espetáculo amar a dor.
Assim como o amor que nos foi tanto e farto.
Como um parto que dói e dá frutos

sábado, 9 de outubro de 2010

A CIDADE, O POETA, A ALMA DO FERRO


A cidade de Itabira completa 162 anos de emancipação política. Carlos Drummond de Andrade, 108 de nascimento. A cidade comemora com festa. E o cantor, compositor e poeta itabirano, Newton Baiandeira celebra com seu Outubro Poético.

A ALMA DO FERRO
Newton Baiandeira

Na terra da poesia o que de mais havia são pedras no caminho. A pedra fala sem voz. A voz se cala e por quanto mais se cale, mais à pedra vale. Onde pedra havia já não há caminhos. Só e ferrais esculturas de um tempo porto, de um rumo torto pra versos largos. E ao conflito das almas ainda se bate palmas de mãos surradas. Tudo ou nada vale a pedra mais que o caminho quando não há rumo.

OS PIONEIROS
Newton Baiandeira

Quando escavadeiras eram unhas, Lectra hauls eram balaios. Nosso combustível era a esperança, fé num futuro promissor. A gente já explorava o minério e as indústrias artesanais afloravam.
Tropeiros e carroceiros, pioneiros homens de ferro escreveram lendas e a história de um desenvolvimento que até hoje não veio.

JARDINS
Newton Baiandeira

A cidade guarda jardins descabidos, com flores teimosas que superam descuidos e descasos e florescem altivas. Surgem imponentes, varando gretas do absurdo, soberbas.
Ao desleixo proposto, em sua fala de flor parecem dizer: - ora, não tem importância!

O CHAPÉU
Newton Baiandeira

No inverno, mansamente, a névoa se debruçava sobre o Pico. Uma fantástica performance da natureza, oferecida aos olhos das gerações passadas.
Da varanda de alguma casa, no Campestre, Antônio Francisco Martins Soares, embevecido de tamanha magnitude, exclamava: “Olha o Pico do Cauê colocando o chapéu!”

SER ITABIRANO
Newton Baiandeira

Ser itabirano é
Contar
Vagões
Reverenciar
Drummond.
E, numa eterna alquimia, forjar de ferro e poesia um jeito especial de viver,
sonhar e administrar paixões.

AS PEDRAS
Newton Baiandeira

Tiraram as pedras das ruas e meus pés perderam a direção. Outros caminhos maiúsculos e sem pedras em seu meio os conduzirão ao ouro fácil, imaginam eles. Entre as pedras e os meus pés, algo suspenso, sigo em linha reta, abnegado, abengalado.
Apenas caminho sobre o moderno projeto, catando ausências, contando maus-olhados de homens que, cegos, não olham onde pisam. Vesgos, não pisam onde olham.

ARTE NO MURO
Newton Baiandeira

Uns trabalham na “segunda mineradora do mundo”. Outros e liberais pequenas empresas e salários os acolhem. Um muro social divide duas lâminas em silencioso, permanente combate. Nem de Sartre, nem de Fidel, Berlim ou China. Nem de pedras ou rosas. Nem de tucanos ou de urubus; a dividir vontades e idéias.
Muros deveriam servir somente às artes e encartes. Espaço de contato entre os olhos e o simples belo. Reações, transgressões: imagens inipócritas do eterno conflito entre bem e mal. Cabem ás manifestações e expressões do espírito como luvas aos dedos de Deus. Mais que divisor, um elo entre liberdades: eis ao que serve um muro.
Do pincel que se aproxima à tinta que tinge o muro há rimas de liberdade na via entre claro-escuro. Há meios inventando recomeços que não têm fim.
- Há um muro entre nós!
- Não, nós é que nos colocamos entre muros!


ÍMÃ
Newton Baiandeira
A gente respira fagulhas de ferro.
Alguém controla o ímã.
A gente anda na linha, dóceis vagões humanos.

LADEIRANDO
Newton Baiandeira

No céu a lua. No chão a rua. Via de regra, a rua sobe ou a lua desce e quase se tocam. Cidade de morros, Itabira, seus altos e baixos.

IMAGENS
Newton Baiandeira

De qualquer ponto da cidade via-se o Pico do Cauê e de lá, Belo horizonte. Os meus olhos jamais deixaram de rebuscar essas imagens, de recomporem essa visão para as novas gerações.

MEDITAÇÃO
Newton Baiandeira

Virá do ato a conseqüência.
Da inocência a sabedoria.
E na agonia do entremeio
a alma fatigada buscará a paz.

A LENDA
Newton Baiandeira

Tem uma serpente no subsolo de Itabira. A cabeça dela fica debaixo da Igreja do Rosário e sua calda embaixo do Pico do Cauê. Dizem que no dia em que o minério acabar, a fera vai reagir. E ninguém sabe medir a força de sua reação.

COLÉGIO SUL-AMERICANO
(tombado pelo IEPHA)
Newton Baiandeira

Ali dentro, inquirido, respondi a todas as questões. Aqui fora, me perguntaram o que era Tombamento e eu não soube explicar.

EXAUSTÃO
Newton Baiandeira

A ação do tempo esculpindo belezas perturba o ego do homem. O tempo não pode impedir o fenômeno da criação. O homem não sabe conter o seu ímpeto de destruição, sua saga. É como uma praga. Embriaga-se da vida e se mata.

TEMPO
Newton Baiandeira

Passado de ferro
Presente de pedra
Futuro de aço.
Inoxidável poesia itabirana
Indecifráveis homens de ferro.

A LENTE
Newton Baiandeira

Não me choca o minério arrancado.
Dói-me a paisagem deformada.
Fere-me a imagem perdida na memória.

CASA DO BRÁS
Newton Baiandeira

Miro a casa recém-retocada, entro. Ouço minhas pisadas. Ou passos do passado ecoando no presente? A emoção me dá asas, vôo, cômodos a dentro. Madeira e barro num desenho lógico me acomodam e incomodam. Quadros em paredes brancas revelam imagens, retratos de quem soube com maestria captar o que se passava entre luz e sombra na Itabira de seu tempo.

BASTANTE
Newton Baiandeira

A cidade de pedra, a pedra da alma dos homens; os homens de ferro, o ferro malhado a frio preenchem qualquer vazio que ouse aportar esse coração.

EM TRÊS TEMPOS
Newton Baiandeira

O homem do passado levou a terra à exaustão. No limiar da grande catástrofe, o homem do presente busca na preservação da natureza, meios de transformar o que ainda resta, num ambiente digno de acolher as gerações futuras. Meio-ambiente: O único meio de salvar a gente!

ITABIRA
Newton Baiandeira

Itabira é o verso que não tem rima. A magia que surpreende o mago. O primeiro trago no cigarro, após o café da manhã.
Itabira é a oração que o padre não aprendeu. A poesia que o poeta perdeu. A canção que não encontrou intérprete.
Itabira é tocar o horizonte com os olhos, abraçar o infinito com desejos e nunca tê-los escravos.
Itabira, meus senhores, é daqueles grandes amores que, por não sabermos amar, fechamos no peito e chamamos de saudade.

CAMARIM
Newton Baiandeira
Ao final do grande espetáculo amar a dor. Assim como o amor que nos foi tanto e farto. Como um parto que dói e dá frutos.

sábado, 18 de setembro de 2010

A ALMA DO FERRO

A cidade de Itabira completa 162 anos de emancipação política. Carlos Drummond de Andrade, 108 de nascimento. A cidade comemora com festa. E o cantor, compositor e poeta itabirano, Newton Baiandeira celebra com seu outubro poético:

A CIDADE, O POETA, A ALMA DO FERRO

A casa é grande, a noite maior, o medo demora mais no quarto. A cabeça coberta deixa o corpo molhado, mas nada passa de assombro pelo veludão. A gameleira frondosa caindo sobre a janela abriga a coruja. Maldita coruja! Eu não a conheço, mas sei que ela quer me pegar. Tuturututu! Seu canto, como garras, rasga meus tímpanos. O cobertor me sufoca, mas eu sei que ela entrou, que já está no quarto. A lua grande e branca cercada de sombras passa vagarosamente pelo vidro da janela. Greta de coberta, eu vejo noites de medos meninos. Sou até a alma arrepios.

À esquerda, chão de terra, o morro abaixo leva á porteira da fazenda. É lá que mora “Nota”. É uma mulher muito bonita, contam. Sabe, toda sexta-feira à meia noite ela toma uma surra não se sabe de quê ou quem. Da última vez a polícia a encontrou na manhã do sábado, toda ferida. Apanhara muito e fora deixada amarrada de arame farpado na porteira. Á noite, eu sempre ouço o vai e vem triste da porteira. A mata que fundeia a casa, dizem, guarda muitos espíritos ruins.

São 6 horas de uma manhã de sol e calor e as minhas irmãs vão pra escola. Setenta e cinco degraus da mais longa escada de pedras levam à estrada principal, lá em baixo. A carroça do leiteiro passa às 10 horas e o burro cansado pára pra comer o capim da beira. São seis garrafas de leite no engradado e não pesa tanto ao menino quanto a carroça ao burro. Setenta e cinco degraus para cima, agora assim, o sofrimento da volta. Não é qualquer cansaço da subida que dói. Distância e demora pra retomar os brinquedos largados à grama é que martirizam o moleque. Por fim, café tomado, vou me chafurdar na grama, montar o carneiro e perseguir galinhas até à hora do almoço.

Minhas irmãs já vêm da escola e a música mais bonita que meus ouvidos sabem contar ecoa em suas vozes:
“Este grupo, este bairro, esta usina
Acesita é uma grande poeta
A vanguarda que afinal nos ensina
Tudo aqui, cada qual é um afeto
Carlos Drummond de Andrade
Todas as pedras do caminho
Este grupo escolar vencera
O brá, gibi, giribi, brá, brá,
Vencerá, vencerá, vencerá.”

Um senhor branco e louro, de olhos azuis e outros traços alemães, convidara meu pai a vir pra Itabira, Prometera-lhe emprego na Companhia Vale do Rio Doce. Confiante meu pai abandonou a Usina em Sá de Carvalho. Juntou a família, botou a mudança nas mulas e veio. Promessa não cumprida, meu velho viveu apenas alguns dias de decepção, um exato mês. Deixou viúva e seis filhos, eu segundo caçula dos homens.

Quando aqui cheguei tinha seis anos. Carlos Drummond de Andrade, se até então fora apenas um prédio escolar na minha memória infantil, era agora um homem. E poeta, o maior entre todos. Itabira, a Cidade do Ferro, sua terra. Mais que Cabral ou Colombo, eu descobrira um novo mundo, ganhara um amigo ilustre e todas as nuances de uma avassaladora paixão. Criança pra compreender, gigante para amar, era eu! “Carlos Drummond de Andrade, todas as pedras do caminho...” O refrão do hino da Escola de Acesita não saía da minha cabeça.

A cidade parecia odiar o seu mais ilustre filho. Poucas pessoas do meu convívio seja nas ruas, no Grupo Escolar Cel. José Batista onde eu estudava ou mesmo na vila em que eu morava, se contava nos dedos aqueles que rendessem homenagens ao autor da frase maldita: “Itabira é apenas um quadro na parede.” À melancólica expressão da frase somava-se uma ira incompreensível. Ó Deus, meu prédio escolar, agora homem e então poeta, corre o risco de ser linchado e não tem “O Fantasma” que o salve dessa gente ruim! Eu tinha nove anos, pareciam cinqüenta. Bastiana, só Bastiana! Minha mãe sabia minha cruz.

Não sei se por compaixão infantil, mas a paixão não tardou em me tomar o peito e tudo que fiz dali até muitos anos foi buscar o poeta onde houvesse alcançá-lo. Professores, jornais, placas do comércio, qualquer informação servia. Informações, poucas e quase sempre rudes. Conhecer a obra de Drummond, “isso é lá coisa de menino? Na Escola faziam festa pra ele. Professores recitavam alguns poemas, mas falavam muito rápido, de não dar pra decorar. No recreio eu era um solitário quando o assunto era a polêmica drummondiana. Assim, levei anos pra conhecer um poema de Drummond por inteiro.

“Alguns anos vivi em Itabira, principalmente nasci em Itabira” e “No meio do caminho tinha uma pedra” em minhas “retinas tão fatigadas.” Era assim que eu misturava o pouco que conseguia da obra do poeta. Eu destacava o “principalmente nasci em Itabira” como contraponto à maldita frase que se referia ao quadro na parede. E muitos daqueles que juravam ódio pelo moço me davam moedas pra que eu recitasse aquela ajuntada poética. Riam, mas pagavam. Sei que recitando fragmentos de Drummond ou cantando as velhas canções que meu pai me ensinara e minha mãe não cansava de repeti-las, fiz de becos e ruelas de Itabira palcos e platéias, generosas remuneradoras.

Quando comecei a compor minhas próprias canções, escrever meus poemas, minha mãe dizia que esta seria uma carreira difícil porque em cada dez de minhas composições nove se referiam ao poeta ou à cidade. Eu respondia a tudo com mais músicas e poemas:
Minha vida é só um trem encantado
Carregado de minério em pó
Arrastando mil vagões
Somo solidões com futuros feitos de jornais
Tenho a sensação de Alcatraz
Juventude foi fim de linha
Coca-cola já perdeu o gás
Almas ao meu lado são minha direção
Num formato música/poesia
O meu mundo é nada mais que minerais
Preparando o pão de cada dia.

Assim, outubro itabirano é pra mim como fevereiro para um carnavalesco. Ao invés de três, trinta e um dias de folia; alegorias de ferro, cordões de poesia, blocos de camaleões, noites de mascarados, confete, serpentina, fagulhas de metais. Arlequins, pierrôs e colombinas, mais de cem mil palhaços no salão. Itabira é só um trem encantado: O Trem que Leva Minas.




Continua a partir de 1º de outubro...