OLÁ, AMIGOS!

Como retribuir ao universo a dádiva da vida, pensava. Agradecendo a Deus todos os dias. Dividindo com o mundo o que de melhor me ocorresse na alma, o que eu mais amasse em mim. E respondia à minha própria busca: Arte, a única coisa que diferencia os homens. Eis então minha oferenda ao mundo, minha contribuição para a humanidade: minha arte. Melodia como veículo de minha poesia e vice-versa, minha arte sou eu, levando a quem quiser ouvir minha forma de compor, escrever e cantar o universo e o acontecer das coisas que vivencio. O que canto ou escrevo é o que há de mais profundo em meu coração. Rogo por agradar a quem me ouvir ou ler. Benvindos e obrigado pela visita! Newton Baiandeira





quinta-feira, 5 de maio de 2011

DIA DAS MÃES DIA DA LUZ DIA DO AMOR



MÃE DE DEUS
Newton Baiandeira
Mãe é isso!
Mãe é aquilo!
Mãe é assim, assado!
Mãe é quase Deus!

- Ora, Deus é tudo, é por inteiro!
- É, mas quando o bicho pega
a gente chama a mãe primeiro!

MÃEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!!!!!!!

É A MÃE!!!
Newton Baiandeira
A paz
O amor
A paixão
O carinho
A perseverança

A mão que se estende
A mão que balança o berço
O colo que aquece
Os dedos que contam o terço
A luz
A vida
O mundo!

MÃE DA ETERNA LUZ

Quando me for
Não terei dor aguda
Nem remorso profundo
Terei sim saudades de mãe

Quando me for
Não terei mágoas nem fráguas
Terei sim, saudades de mãe

Quando me for
Não terei ido
Terei ficado
Guardado fundo
No fundo de mãe


ESTRELA DE URIEL
Newton Baiandeira
Te vejo sorrindo
Pra todos, pra tudo
Um riso tão fundo
Que o mundo faz-se alegrar

Te vejo à corrida
De mãe compreendida
Paixões inseridas
Das vidas de seu redor

Mulher pessoa seu papel
Estrela de Uriel
É compreender a luz que reluz

Mulher
Geraldamente em paz
A vida se compraz
À tua dimensão

BALA COM BALA
Newton Baiandeira

Mãe, eu cai no mundo que me adotou
Veja em que seu menino se transformou.
Nesse malabarista
Pássaro, equilibrista
Andando sobre linha do equador

Mãe, eu desaprendi as tuas lições
Mãe, eu perdi o terço e as orações
Mãe, esse trem tá feio
Se Deus não passar no meio
Vai ser um revolteio de explosões

Mãe, esse mundo é sina
Vende-se cocaína
Lá fora explode usina nuclear
Mãe, é bala com bala
Cobra comendo cobra
Mãe, é fome de sobra pra engordar

Mãe, inocência aqui sobrevive não
O ser humano baixa de cotação
Mãe me tira daqui
Mãe, leva eu pra aí
Mãe me retira dessa embarcação

Mãe, eu não tenho jeito pra ser herói
Mãe, eu tô mais perdido que a multidão
Um carregando a cruz
Outro buscando a luz
Olhando pra Jesus, pedindo pão

Mãe, é um pega-pega
Mãe, é um corre-corre
Mãe, é vive-morre sem por que
Mãe, é bala com bala
Cobra comendo cobra
Mãe, é fome de sobra pra viver

terça-feira, 26 de abril de 2011

NAS TRINCHEIRAS DAS PAIXÕES



NAVEGAR
Newton Baiandeira

Rosa dos ventos
Estrela-guia
À calmaria meu barco vai
Velas além do cais
Onde o sol houver brilhar eu vou

Terras distantes por descobrir
Mares além
O amor me tem seu navegante
Imensidões
Riscos a ver
E o transcender me leva e me traz

Se me compraz
Do que viver
Meu navegar é mais

A DOR PELO RISO
Newton Baiandeira

À dor do calvário, queres matar o mundo?
A dor te consome?
A razão te corrói?

Quando tua alma, faminta de alegria,
sedenta de sonhos e vôos se acabrunha,
é ela, tua dor, que vai pro fogão
preparar-te o melhor prato de risos.

Ao suco de céus de nuvens claras,
guarnece-te de asas, te instiga
E te diz: Vai, gaivota,
dar corpo ao espaço
a seu modo e tempo.
A luz que te cega
pela cruz que carregas,
Vai gaivota, vadiar no paraíso!

MINHA ETERNA CANÇÃO
Newton Baiandeira

Dá-me um beijo profundo
Tão fundo que chegue a minha alma.
Coloque a palma da mão no meu ombro
Em toques sutis
Sem esperar o amanhã
Destrave o teu soutien
Bota teu seio entre nós

Minha fera felina
Minha alma latina, mulher!
Meu café da manhã,
Meu cigarro, meu hortelã

Bota teu ventre
Que entre macio
Entre as minhas coxas
Pasmo à mercê dos orgasmos
Que fazem jorrar
Seivas e semens febris
Ganidos de alma feliz
Suor de corpos em paz

Meu lugar no futuro
Meu porto seguro, mulher!
Minha ginga, meu gol
Minha eterna canção, meu show

A ESTRELA QUE ME DESTE
Newton Baiandeira

Como a flor que brota no jardim
Uma porta a se abrir à luz
Como o sol que adentra o universo
Feito um verso a penetrar
No compasso da canção
Como a lua, dominando o céu
Feito a tinta no papel
O sorriso no olhar
Como a aranha tece a teia
Como a abelha faz o mel
Como a noite faz a estrela
Como a estrela brilha ao léu
Como, um dia, tu vieste
Todo o agreste se encantou
E a estrela que me deste
Toda a terra iluminou

Feito um arco-íris no verão
Um corisco solto pelo céu
Feito alguma essência que se exala
Ensinaste-me a solidão
A saudade dói em mim
Ando, sem saber a direção
Feito um carro em contramão
Vivo perto de morrer
Como a trilha cabe à curva
Como a luva cabe à mão
Como a uva cabe ao vinho
Como a chuva à inundação
Foste, assim como vieste
Todo o agreste se calou
A estrela que me deste
Nunca mais no céu brilhou.

NAS TRINCHEIRAS DAS PAIXÕES -1988
Newton Baiandeira
Amava Júlia Ana
Solenemente Ana
Dois amores tão iguais
No abismo das paixões

Dançava Júlia
Ana cantava soberana
Em profanas traduções
Das trincheiras do amor

Duas almas nuas em fulgor
Contornando luas de amor
Quando a luz do sol
Desatava o nó
Julia e Ana se fundiam numa só

Ruborizada Ana
Alucinada Júlia
Duas almas numa só
Revelando o amanhecer

Desviando às plagas, contornando a multidão
Em segredo Ana e Júlia Juliana são

Amedrontada Júlia
Amenizante Ana
Duas almas numa só
Revelando o amanhecer

À luz que irradia
O amor de cada dia
Ana e Júlia vão iguais
Nas trincheiras das paixões

quinta-feira, 21 de abril de 2011

ECOS DA SEMANA SANTA



ANJOS
Newton Baiandeira

São Gabriel
São Rafael
Meu São Miguel Arcanjo

Meu Querubim
Pede por mim
Cuida de mim, meu anjo

Virtudes soltas no gás
Quero a fortuna da paz
Meu Serafim do além
Guarda meus passos, amém!
Protege o meu coração
De toda desilusão

Asas de Deus,
Cuidem dos meus
Doces irmãos da arte

Fazei de nós
Dedos de Vós
Pintando em toda parte

Todas as formas da cor
Um arco-íris do amor
Meu anjo, São Gabriel
Guarda-me dentro do céu
Meu São Miguel Arcanjo
Cuida de mim, meu anjo.

PROCISSÕES
Newton Baiandeira

Displicentemente,
A gente segue em frente
Paulatinamente, a pé
Intimando deuses
Pra milagres santos
Pra justificar a fé

Procissões eternas
De doer as pernas
Pra se alcançar perdão
De tantos pecados
Mal interpretados
No antro da reflexão

Obras do demônio
E esse manicômio
Asas do infortúnio
Pairam sobre nós

Longe dos deveres
Párias dos poderes
Agradecem nosso algoz
Por manter acesa
A chama da pobreza
Que sufoca nossa voz

PALAVRA DE DEUS
Newton Baiandeira

Não faça sacrifícios pra chegar a mim
Pois não virá a mim aquele que não for feliz
Somente seu espelho pode refletir
Tudo quanto você é

Eu sou você no espelho
Eu sigo os teus conselhos
Eu faço tudo que você quiser

Pra ser feliz basta apenas me amar
E ninguém pode medir
Tempo, modo ou lugar

Ninguém tem passe livre pra falar por mim
Somente seu espelho na verdade é seu pastor
A vida viverá
Enquanto houver amor
Se você é feliz eu sou

DIVINO É O PERDÃO
Newton Baiandeira

Eu olho pro céu
E sinto pulsar
O meu coração, ó Deus!(Jesus)
Minha alma se enleva então
E em minha oração Senhor
Eu rogo por mim

E todo o redor
E todos, irmãos
De boa vontade, ó, Deus!
Por todos os filhos teus
Nos daí vossa paz, senhor!
Já sinto os sinais

No ar que respiro
À luz do sol da manhã
Nos rios e mares
Verdes mais do hortelã

Nos templos, fiéis
Nas tintas, pincéis
Nos homens de bem

Que impíos e ateus
São todos de Deus
Divino é o perdão

LUZ DE DEUS
Newton Baiandeira

A luz que brilha aqui
Não é a mesma luz
Que se produz na usina
A luz que me ilumina
É a luz do sentimento
Que vem do firmamento
E toca o catavento da paixão

O brilho dessa luz
Vem do amor de Deus
Chega-me sem um fio
Entra-me pela alma
Sem taxas ou tarifas
Sem corte repentino
O preço do Divino é minha fé!

HONRAR A CRUZ
Newton Baiandeira

Se te causa dor carregar tua cruz
Pensa com fervor no Senhor Jesus
Que sem qualquer culpa se sacrificou
Não se justifica teu clamor

Mira nosso rei
Com poder à mão
Se humilhar, sangrar por nossa estupidez
Se elevar ao pai e rogar por nós
Se isto não responde a tua lógica

Por seu pecado meu irmão
Pra aliviar a tua dor
Honre tua cruz
Nela padeceu Jesus

PELO PASSEIO
Newton Baiandeira
Vem meu amor
Pela Rua do Bongue
Brincar de ping-pong
Mirar o Castelinho
E desaguar na Matriz
Pôr carta no Correio
Pegar pelo passeio
Lições do ABC

Ali morava o poeta
Em frente era a Câmara
Se criava as leis
Vem além da Praça do Centenário
A Igrejinha do meu Rosário
A festa de Folia de Reis

Ah! Meu tempo de menino, a procissão
Ah! Um elo na corrente de orações

Moças, beatas no terço
Do fim ao começo
Lopinho e Lopão
Ai que saudades das bandas
Fazendo cirandas no meu coração

ANJOS DA NOITE
Newton Baiandeira
Meninos de rua
No jogo da sorte
Aos ventos do norte
Não sabem voar

Nos becos da vida
À beira da morte
Quais ventos do norte
Não podem voar

Ao som de rock and roll
Um copo de cerveja Skol
Vão aves marginais
Num céu de anjos canibais

Meninos da noite
Achados na vida
Por balas perdidas
Não podem voar

Pedaços da noite
No jogo do ódio
Não chegam ao pódio
Não sabem voar

Escravos da ilusão
Dos anúncios da televisão
Retórica do amor
No discurso de um governador

CICLO
Newton Baiandeira

Nascer, acesa a luz, brincar, correr
Sem se prender ao amanhã
Sorrir, acontecer, ganhar o sol
A vida é cheiro de hortelã.

Voar no tobogã, roda gigante,
O sonho preso num barbante,
A vida em volta de um balão.
Rolar nos movimentos do planeta
Não há boi-da-cara-preta,
Não existe solidão.

Crescer, sonhar, não ter, lutar, sofrer,
Desaprender a ser feliz.
Juntar, poupar, adoecer, juntar
Poupar riquezas pra amanhã.

Futuro pronto, o coração tá cheio
Uma carta do correio
Diz que é o fim da ilusão
Chorar, se arrepender e rogar praga
De repente, a luz se apaga
E é o fim da canção.

sábado, 16 de abril de 2011

TEM BELEZAS MINHA TRIBO




QUARUP
Newton Baiandeira

Movimentos de rara beleza
Versos de selvagem poesia
Ritmos aflitos de tambores
Compõem um magnífico espetáculo
De fé e dor e magia
Um ritual que revive os mortos
E emociona os vivos.

PALAVRA DE ÍNDIO
Newton Baiandeira

Eu não tenho pátria
Porque pátria é terra
E eu não tenho terra

Eu não tenho vida
Porque vida é liberdade
E eu sou cativo

Eu não tenho paz
Porque a paz é branca
E eu sou índio

CACHIMBO DA PAZ
Newton Baiandeira

Cadê o índio, seu oportunista
Que tinha terras de perder de vista?
Catequizado pelo padre jesuíta
Trocou apito pelo grito de guerra

Cadê a terra que virou colônia?
A Amazônia que virou estrada?
Que deu em nada, numa praça de Brasília
Pros meninos de família brincar de queimada?

Seu moço, cara-pálida, cadê o índio?
Cadê porto seguro pra se ancorar?

O dono dessa terra há muito se funai
Vendendo eletrônicos do Paraguai
Reserva de garimpo não dá sangue não

Riachos de mercúrio, que pesca infeliz
Meu caro jesuíta avisa ao meu país
Que mata de concreto não dá caça não.

CAFUZOS CONFUSOS
Newton Baiandeira

Sou latino-americano
Índio, negro, branco, tropical
Vivo aos trancos e barrancos
Mamelouco dos arrancos
Um cafuzo em mais confuso caos

Negro escravo da balbúrdia
Torres de babel
Escapando de esparrelas
Cenas toscas de novelas
Nas senzalas desses carnavais

De mãos dadas, pão e circo
Com futuros tais
Que nos barcos cabralhantes
Navegados mares dantes
Prometiam mil anos atrás

CABOS DE OUTRAS TORMENTAS
Newton Baiandeira

Mares além, desde a Cruz de Malta
Que mal nos sobra e bem nos falta
Que ainda aguardamos Cabrais
Desses brasis tropicais

Pra devolver o cocar ao índio
Lavar do tronco o sangue escravo
Pra caravela singrar
Numa favela pra ver

Mares que então, nunca dantes
Quaisquer navegantes
Ousaram singrar

Cabos de toda tormenta
Onde o mar se arrebenta
E se inventa afogar

Há que se ver como o fado samba
Há que saber que o meu povo bamba
Mais do que algemas, grilhões
Desfaz armadas do caos

MISTURANÇA
Newton Baiandeira

Mameluco mamelouco
Cafuzo confuso
Tá me dando parafuso
Na cabeça, mãe!

Sou brasileiro
Sou latino-americano
Europeu e africano
Índio, branco, moreno

O que é que eu faço
Com essa personalidade?
Sou da roça, da cidade
Ai, meu Cristo redentor!

Caboclo, pardo, caipira, caipora
Sou de dentro, tô de fora
Fui embora, tô aqui

Na minha veia
Tem sangue de todo mundo
E eu, nesse buraco fundo
Sem saber pra onde ir

Já tive rei, imperador e presidente
Sou chegado num repente
Tiro um samba no tambor

A terra gira
E eu não saio do atoleiro
Sou pedaço? Sou inteiro?
Diga, mãe, o que é que eu sou?


CARA PÁLIDA
Newton Baiandeira

Éramos cinco milhões de índios
E somos alguns mil
Bravos silvícolas ameríndios

Qual é, Brasil!

Vimos de guerra em guerra
Tomando terras de gente inválida
Que importa a vida humana!
O que vale é grana pra cara pálida

Ô,ô.ô,ô!

Me dê a terra
Leva um espelho
Couro vermelho e tal

Enche a moringa
Um litro de pinga
Vinda de Portugal

Troco essa mina
Por cocaína
Dou Novalgina pra tu
Computador
Carro importado
Troco pelo Xingu

MARES MINERAIS
Newton Baiandeira

Eu sou mulato
Eu lavo prato
E o que houver de lixo

Sou mameluco
Já mamelouco
Um índio, pé-de-bicho

Sou itabirano
Bandoleiro urbano
Vivo a contar vagões

Refazendo metas
Sonhos de poetas
Que não saem da estação

Sou mameluco, cafuzo
Mulato, caboclo
Meu bloco é tambor

Tô mamelouco, confuso
Muleta, cotoco
de guerras de dor

Eu sou cafuzo
Ando confuso
Num chão de ouro em pedra

Homem de ferro
Me fere, eu berro
E minha alma não medra

E nessa canoa
Mares sou Pessoa
Nunca dantes navegados
Mares minerais não cabem a Cabrais
Toda, minha alma voa

ACORDE UNIVERSAL
Newton Baiandeira

Ouviram da Amazônia um gemido
Dos povos da floresta universal
Lamentos de uma fauna que ardia
No fogo do descuido nacional
Agonizante flora que sangrava

À lâmina sutil da clava forte
A lágrima de um rio a se exaurir
E geme quem te adora à própria morte

Ao som da serra elétrica
E profundos acordes de tambores
A canção em códigos envia pelo mundo
Mensagens de uma raça em extinção

Fulguras, ó Brasil, florão da América
Que ao despertar do sono mais profundo
Fechemos nossas mãos num laço fundo
Pra vida deste mundo respirar.

Éramos 5 milhões de índios. Somos alguns milhares.Dia 19 de abril é DIA DO ÍNDIO!
Não esqueça, não deixe que esqueçam! Newton Baiandeira

domingo, 10 de abril de 2011

CANÇÕES AO CORRER DAS ÁGUAS



Às vezes, a própria sonoridade da palavra dá o fio melódico da canção que vou compor. Ainda que a peça, ao final da inspiração, se traduza apenas uma composição literária, percebo ali uma melodia incontida. Um tempo depois, ela salta do texto e me sobra apenas sinonimizar algumas palavras; e a harmonia entre letra e música acontece. Não consigo compreender isso. Essa indomabilidade me incomoda, assusta e encanta.

O SEMEADOR
Newton Baiandeira

É preciso regar de suor os canteiros do chão
É preciso afagar a semente na palma da mão
E sentir o tremor da emoção que a semeia nos dá
Acariciar a terra com toda a chama
Que queima nossa alma de plantador

É preciso vencer pelo mel a maldade do sal
É preciso entregar a si mesmo o direito de ser
E sentir que nascemos de novo no sopro de um sol
Que nos empurra às luzes de um novo tempo
E nos devolve a força de plantador

É preciso rever os milagres que a terra traduz
Em distâncias de flores e frutos do sêmem de Deus
E sentir desconforto de ver que ainda falta um refrão
Que ainda a canção é frágil pra ser um hino
Que ainda somos meninos sem direção.

FORA DA ÓRBITA
Newton Baiandeira

Vivo em permanente estado de poesia.
Algumas vezes, saio pra dizer besteiras,
Xingar o mundo, insultar o tempo;
Descompor o tirano, clamar à vida.
Aí, lembro de minha mãe a me corrigir:
“Menino, a vida é bela. A gente é que estraga ela!”
Então volto, agradecido, farto.

CAÇA E CAÇADOR
Newton Baiandeira

Me chama de prazer
Me trata por amor
Me chama pra brincar de caçador

E se esconde
Não responde
Meu amor.
Ai, que saudades de nós!

Desentoca
Sai da loca, por favor!
Já não agüento brincar
De caça e caçador.


CÓRREGO DA PENHA
Newton Baiandeira

Sai da nascente
Desce as escadas
Corta a cidade
E vai embora.
Visto de cima
Parecem lágrimas
Rolando dos olhos
Do velho Cauê.


FIM DA CANÇÃO
Newton Baiandeira

Bem-te-vi te via
Sabiá sabia do amor
que eu sentia ao te ver
No amanhecer do sol
Lá vinha o rouxinol cantar pra você.

Era um coração no peito a disparar
Inventando pulsações pra te ganhar
Você não quis ouvir meus ais
E se foi, sem mesmo dizer adeus.

Bem-te-vi me viu chorar
Sabia o sabiá que era ao final solidão.
Rouxinol emudeceu
E a vida compreendeu o fim da canção.


ÁGUA CORRENTE
Newton Baiandeira

Quem espera por mim
Não sabe a cor da mocidade
Não pintou com claridade
As cores todas da razão
Não me cobre a presença
Que a presença é tão difícil
Pode ser que o orifício
Continue a esperar

Água corrente
Amanhã finda janeiro
Normalmente fevereiro
Pinta no segundo mês
Mas certamente
Como a coisa tá mudada
Pode ser que de mancada
Dê janeiro outra vez

Outra vez eu perdi
A direção do pensamento
Corre estrada, voa vento
Corre o tempo sem parar
Para trás, ventania
Simpatia não te espera
Tu levaste a primavera
E eu nem sei pra onde olhar

Olhar depressa
Tem cheiro de mau-olhado
Coração apaixonado
Pela pele do Brasil
Brasil, gigante coração
Pele dourada
Da morena revoada
Que o meu coração partiu

Partiu pra longe, avoou
Qual passarinho avoador
Rasgou o céu
Cortou o véu e ninguém viu
Nas asas turvas do avião
Deixando curva a sensação
Deixando história
Pra memória do Brasil

Solidariedade
Mocidade independente
Sem lugar, sem presidente
Continente sedutor
Águas claras de rio
Pele fina de esperança
Lua nova, semeança
Terra solta que se abriu

Abriu a porta
Do meu peito aventureiro
Me tomou como um guerreiro
Em posição de atirar
Água corrente, coração aventureiro
Não tem pena do aguaceiro
Que afoga o meu olhar

sábado, 2 de abril de 2011

JANELA ABERTA




UM PÁSSARO NA JANELA
É sábado, tenho um sol inteiro à janela e uma canção inacabada... Bom dia grande, amigos!


EM SOL ALADO
Newton Baiandeira

Um pardal pousado à janela, que deveras!
Veio tão somente catar comida ou me lembrar de ir ver o sol?
Pronto! Lá vai ele, de asas alegres, papo cheio e missão cumprida!
Esse meu domingo começou em sóis e vôos.
Quiçá, há de terminar em pouso leve e sono sonhador!


ECLÍPSE DO AMOR
Newton Baiandeira

O sol só vê a lua quando a lua está no cio
O céu entra em rodopios
Quando os dois fazem amor
O sol inventa giros pro cortejo da amada
E a lua idolatrada inunda o céu com seus clarões

E rodam pelo céu, orgasmos de paixão
Gemidos sussurrantes, almas presas ao clarão
A terra se aparelha pra alcançar essa visão
Ao ver tamanho afã, discretamente o sol
Puxa a cortina e apaga a luz do seu farol
O eclipse do amor de lua e sol no azul
Somente o cantador enxerga a olho nu
Em breve a lua mansa traz ao céu sua barriga
O sol fazendo figa aumenta a luz do seu farol
Poeira de estrelas são meninas tão brilhantes
São filhas cintilantes do amor de lua e sol

AOS OLHOS DA LUA
Newton Baiandeira

A lua que mira a mira que alua
Faz-se nua à máscara real
Que, não fosse tal, mais veria de lua
Mais dar-se ia a miras e contemplações
Aos olhos da lua o homem de meia lua

DUALIDADE
Newton Baiandeira

Poeta e pessoa
A diferença é coisa à toa
Um enxerga o outro vê
Um escreve o outro lê

Poeta e pessoa
A diferença é coisa à toa
Um caminha o outro voa.

MEDITAÇÃO
Newton Baiandeira

Virá do ato a consequência
Da incência a sabedoria
E, na agonia do entremeio,
A alma fatigada buscará a paz

terça-feira, 8 de março de 2011

DIA DA MULHER, MÊS DE TERNURA, LUZ DE VIDA INTEIRA


MULHERES
Newton Baiandeira

Eu respeito essa mulher
Que produz da fé a decisão
Eu desejo essa mulher
Que transcende a chama da paixão
Entre orgasmos e lençóis
Sem perder o fio da razão
Pelos labirintos do poder
A cidadania de batom
Vai traçando um novo tom
Na cisão cirúrgica do caos
Cúmplice, parceira natural,
Mãe, mulher, amiga, pai, irmã
Brasileira ou afegã
O amor é um laço universal
Brilhará
Sempre quem compreender a luz
Carregarão a cruz do sol
Os homens da paixão fugaz
Que não apostam no amor
Útero, a liberdade efêmera
Se eternizará no amor
Todo futuro é fêmea,
Todo o universo é prazer

JÚLIA
Newton Baiandeira

Júlia, pega uma estrela no céu
Pra iluminar sua estrada, vai
Deixa seu corpo rolar

Júlia, todo o universo é você
No coração de quem fica aqui
Pelo prazer de te ver

Jura que nosso amor será
Sempre, esteja onde estiver
No azul do céu, na terra ou no mar
Mais do que o chão
As ondas, o sol, o luar.

AMÉRICA DO AMOR
Newton Baiandeira

Nada poderá atrapalhar meus planos
Tudo que juntei por todos esses anos
Sonhos por viver na dimensão da vida
Trilhas que paguei viagens proibidas
Nada impedirá meus planos
De romper o tempo, voar

Sou uma mulher americana
Neo-latina além do Equador
Infinita, livre, leve e solta
Ave de alma exposta, meu amor
Nada no mundo se cria
Tudo transforma-se em mim
Loba regada de luas de marfim
Libertas Quae Sera Tamen
Na linha do Equador
Na plenitude da América do amor

JULIETA
Newton Baiandeira

Ó, Julieta!
Em que gaveta desses de se trancar?
Em que lugar se esconde?
Me diz aonde que eu chego já!

Vou lhe beijar o beijo mais fundo
Que o mundo viu beijar
Vou semear seu colo profundo
Pra vida se alastrar

Qual luz de uma estrela
Só quero vê-la a me guiar, guiar
No rumo a passo lento
Sem desavento pra me atentar

Um riacho, um cacho de prazer
Um amanhecer de rouxinóis
Seda nos lençóis
Linda de se ver,
Uma casa branca de sapê

Se você estiver ouvindo esta canção
Se quiser meu coração é só dizer
Que eu vou viver a vida até morrer
Só pra te amar, só pra te amar
Só pra te ama.

NAS TRINCHEIRAS DAS PAIXÕES
Newton Baiandeira

Amava Júlia Ana
Solenemente Ana
Dois amores tão iguais
No abismo das paixões

Dançava Júlia
Ana cantava soberana
Em profanas traduções
Das trincheiras do amor

Duas almas nuas em fulgor
Contornando luas de amor
Quando a luz do sol
Desatava o nó
Julia e Ana se fundiam numa só

Ruborizada Ana
Alucinada Júlia
Duas almas numa só
Revelando o amanhecer

Desviando as plagas, contornando a multidão
Em segredo Ana e Júlia Juliana são

Amedrontada Júlia
Amenizante Ana
Duas almas numa só
Revelando o amanhecer

À luz que irradia
O amor de cada dia
Ana e Júlia vão iguais
Nas trincheiras das paixões

HELENA DE PRIMO
Newton Baiandeira

Essa escultura parece uma helena
Qualquer uma helena que venha do mar
Qualquer estrela que seja morena
Qualquer uma helena
Mulher que será
Que sai do prumo, escapa do limo
Helena de Primo que eu fiz batizar
Que seja fêmea, irmã, mãe e filha
Um pai de família
Que saiba enfrentar
Que tenha no rosto
As marcas de agosto
Que tenha nos ombros
A marca da cruz
Que seja Jesus, Maria e José
Um barco de fé
Que assuma esse mar
Eu fiz helena por falta no entalhe
Não fosse um detalhe
Um sopro vital
Seria só uma estátua no limo
Helena de Primo Fulana de Tal.

MUSA
Newton Baiandeira

Os olhos dela são templos
Deuses e ventos cantam a música
Os seus cabelos são teias
Elos, cadeias de sóis verânicos
Em sua boca as palavras têm
Ritmo, vida
Alma perdida no seu batom
Teço em tons o amor

Ando pra lá de ciúmes
Do seu perfume de aura oceânica
Óleos de brisas botânicas
Meu supersônico
Meu amor

MARIA RITA
Newton Baiandeira

Chego ao pôr-do-sol num caminhão
Corpo ensopado de suor
Ela me espera no portão
Coisa bonita de se ver
Maria Rita, meu amor

Se achega em mim caudalosa
Com cheiro de rosa, flor mais bela
Se enrosca no meu pescoço com tanto alvoroço

Gosto dela!

Serve o jantar como se serve ao céu
Uma oferenda banhada de mel
Comida em farto tempero de amor

Sob os lençóis, mil carinhos de amor
Mal fecho os olhos e o despertador
Avisa a hora e lá vem caminhão

De novo trabalhar
Pra poder sustentar Maria Rita.